HOMENAGEADA

Profa. Dra. Sônia Lúcia Ramalho de Farias

Por Carmen Sevilla Gonçalves dos Santos

Em março de 2002, decidi me aproximar do Programa de Pós-Graduação em Letras na UFPE e ver a possibilidade de cursar meu doutorado nele. Uma colega havia me dito que se eu quisesse ter um bom panorama da área deveria cursar a disciplina da Profa. Dra. Sônia Lúcia Ramalho de Farias. Então, viajar todas as semanas de João Pessoa a Recife durante o semestre para assistir aula com ela seria o passo a ser dado. Não sabia eu que veredas lindas aquele passo inaugurava em minha vida e de como aquela busca inicial de sentido já seria dele repleta.

O fato de minha formação ser em Psicologia causava certa estranheza nas pessoas: era preciso deixar claro que relação eu queria fazer com Letras e, principalmente, demonstrar que essa relação era necessária. Meu intuito era construir uma ponte entre a teoria do Efeito Estético (Iser) e a teoria Histórico-Cultural (Vygotsky) e isso não era simples de explicar, pelo menos não naquela época. Às vezes cansava-me ou até mesmo me aborrecia ser sempre arguida por professores e colegas sobre essa relação, estar sempre quase “desenhando” o que para mim era tão claro, óbvio. Para Sônia Ramalho, eu nunca precisei me esmerar em explicações, ela entendeu rápido meu projeto e sua relevância.

A primeira vez que vi Sônia me deixou impactada: uma mulher com muita energia falava sobre teoria e crítica literárias com a desenvoltura das grandes tecelãs. Fios e mais fios de teoria, crítica, literatura e autores eram puxados e entrelaçados com fluidez. Ela enlaçava conceitos, nunca os embraçava, desatava nós heurísticos com certo humor e muita assertividade. No quadro, traçava uma linha horizontal e outra vertical explicando os eixos sintagmáticos e paradigmáticos para esclarecer uma dúvida pontual quase boba de um aluno, mas ela sabia, mesmo assim, responder com profundidade. Nós, alunos, a olhávamos como se víssemos alguém incorporar uma energia de luz que abria nossas mentes e fazia o que era difícil ficar fácil ou ser entendido de modo a pensarmos “como não entendemos isso antes?”. Saí da primeira aula muito motivada, e com dois planos, o primeiro deles era convencê-la a ser minha orientadora, o segundo, era ser merecedora dessa orientação.

Semanas depois, como um náufrago lança uma garrafa com mensagem ao mar esperando que uma pessoa específica a resgate, decidi perguntar se ela aceitaria ser minha orientadora, caso eu fosse aprovada no processo seletivo. Ela aceitou e fez o que somente grandes almas podem fazer: interessou-se, investiu e apostou em alguém antes mesmo que esse alguém fizesse algo por merecer. Sua aceitação me deu um ânimo renovado, foi como se toda aquela energia física-cognitiva-espiritual tão própria dela se esvaísse um pouco para mim. Ela me aceitou e me deixou livre, confiou em meu conhecimento de psicologia, no meu domínio da língua inglesa e me deu suporte. Aquele suporte que tranquiliza nossos corações porque sabemos que há um cais mesmo quando o mar está revolto. Mas o mar nunca se revoltou. Foram quatro anos de uma feliz navegação. Meu doutoramento não me trouxe angústias de relações difíceis ou coisa que o valha, não sofri pressões afora as minhas. As dificuldades eram as próprias do ato de pesquisar, de criar, de tecer com teorias. Nesse sentido, além do cais para onde eu poderia sempre retornar eu tinha o esteio da melhor tecelã. Sem esse cais eu não teria tido a coragem de escrever a tese que escrevi. A tese ganhou prêmio, virou livro. O livro mudou os rumos de minha vida acadêmica e pessoal. Transformou-me também em cais para outras embarcações. Sem Sônia Ramalho não haveria tese, pelo menos não aquela, nem livro, nem GEAL, nem o Congresso Nacional de Estudos Iserianos.

Assim é com extremo afeto e gratidão que lhes apresento a professora homenageada no I CNEI.

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Profa. Dra. Sônia Lúcia Ramalho de Farias

Possui graduação em Licenciatura Vernáculo pela Universidade Federal da Paraíba (1970), mestrado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1976) e doutorado em Letras pela Universidade Católica do Rio de Janeiro (1988), sob as respectivas orientações dos professores doutores Gilberto Mendonça Teles e Silviano Santiago.

 

Lecionou como professora adjunta na Universidade Federal da Paraíba (1976-1994), como professora visitante na Universidade Estadual da Paraíba-Campina Grande (1998) e como professora titular na Universidade Federal de Pernambuco (1998-2014), nos cursos de graduação e pós-graduação em Letras, atuando principalmente nos seguintes recortes literário teórico e culturais: representação do espaço regional e da cultura popular na Literatura do Nordeste, problematização do Movimento Armorial; Literatura Brasileira Contemporânea, Teoria da Literatura, Crítica Literária, com ênfase em temas como mímesis e ficção, Estética da Recepção e do Efeito, Literatura e Ideologia, Literatura e Sociedade.

 

Autora e organizadora de vários livros, entre os quais se destacam: O sertão de José Lins do Rego e Ariano Suassuna: espaço regional, messianismo e cangaço (2006); Memórias fingidas de Silviano Santiago: o falso mentiroso (2013); As fraturas identitárias da ficção (2014); Nove novena em busca do significante perdido (1976, inédito); Mímesis e ficção (2013, e-book); Intérpretes ficcionais do Brasil: dialogismo, reescritura e representações identitárias (2010); Imagens do Brasil na literatura (2005), Literatura e cultura tradição e modernidade (1997).

Organizadora ainda de alguns periódicos sobre literatura, tendo vários ensaios publicados em livros e revistas nacionais  Signatária dos verbetes sobre José Lins do Rego e Menino de engenho, na Biblos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa (1999/2001, v.3-4).

 

Orientou diversos trabalhos acadêmicos como dissertações de mestrado, teses de doutorado, bolsistas de Iniciação Científica e Aperfeiçoamento (CNPq), entre outros. Coordenou o projeto integrado de pesquisa Imagens do Brasil na Literatura (UFPE, 2000/20013), Manifestações regionais da Literatura popular e erudita: messianismo e cangaço no sec. XIX (UFPB/CNPQ, 1989-1991), Co-orientou o projeto integrado Atuação e representação de oprimidos na produção literária popular do Brasil (UFPB/ CNPq, 1987-1990).

 

Exerceu a função de consultora ad hoc do CNPq e o cargo de vice-coordenadora e coordenadora interina do Programa de Pós-Graduação em Letras (UFPB). Atualmente vem se dedicando ao estudo sobre o romance de Chico Buarque, com textos sobre Budapeste e Essa gente, publicados em livros nacionais. Organiza ainda uma coletânea de ensaios para futura publicação, além de participar de bancas examinadoras de concursos públicos em diversas universidades.